Melhores Contos Herberto Sales by Sales Herberto; Grossmann Judith

Melhores Contos Herberto Sales by Sales Herberto; Grossmann Judith

Author:Sales, Herberto; Grossmann, Judith
Format: epub
Tags: Contos brasileiros
Published: 2013-06-20T04:00:00+00:00


A ONÇA

De (Uma telha de menos)

Três motivos podem explicar o desaparecimento de um cavalo, se ele estava preso num pasto: roubo, fuga, ou artes de onça. Se vocês sabem de mais algum, acrescentem, embora o acréscimo em nada altere a história, conquanto encompride a enumeração. Porque, nem bem Praxedes começara a procurar o cavalo desaparecido, sumiu outro, o de Melquíades, preso igualmente num pasto. E o rastro na areia, além da cerca, até perder­-se na boca da mata, não deixava dúvidas: era de onça. Encontraram depois a carcaça, à beira de um riacho, numa prova de que a onça não só o arrastara até ali e o comera, mas completara o repasto com uns sorvos de água fresca. A carcaça do outro não foi encontrada. Nem por isto, porém, se pense em falta de empenho de Praxedes, pois ele por dois bem puxados dias a procurou. Conhecia bem a mata; a onça, entretanto, conhecia­-a melhor que ele. E disto Praxedes se convenceu, não achando em parte alguma o que pudesse ter sobrado do cavalo. Naturalmente, impressionou­-se com a astúcia da onça e com os músculos dela. Devia ser uma onça enorme.

– Pelo rastro se conhece o porte – explicou João Felão, que entendia de bichos grandes. – Vejam só a marca da pata: esburacou o chão na pisada. É um gato alentado, de unha de gancho e munheca larga. Infeliz do bicho ou da pessoa que levar uma unhada dela.

E, perguntado, disse mais, pois tinha a língua solta e não fazia cerimônia. Segundo os melhores autores, em que era ouvido e corrido, onça grande era capaz de arrastar por duas léguas uma novilha, depois de matá­-la. Tudo por treita: treita de onça. No esconderijo, que nunca se sabe onde é, comia descansada a sua presa, sem os intrometimentos de estranhos.

– Então, foi o que aconteceu com o meu cavalo – disse Praxedes. – Mas por que a carcaça do outro não foi encontrada?

– Talvez sejam duas onças – ponderou Melquíades, dono do outro cavalo, ou da carcaça que dele restou na beira do riacho.

Só mesmo João Felão poderia esclarecer. Era novato na vila, mas trouxe fama de caçador de onça, que ele alardeava sem contestação: estava apenas aguardando uma oportunidade para demonstrar a sua perícia.

– Pelo rastro, o gato é o mesmo – disse João Felão. – Onça não anda vadiando como vocês pensam. Essa faz trabalho de caça, e veio de longe. É onça macho, desgarrada da fêmea. O primeiro cavalo ela deve ter levado para comer com a companheira. Desconfio que a morada dela é no Alto do Socavão, a umas três léguas daqui. Com o porte que tem, não foi difícil arrastar o cavalo até lá. É onça viageira. Tem tino de estrada. O outro cavalo, que vocês dizem que era menor que o primeiro, ela comeu sozinha, na beira do riacho. Mas garanto que se ela pegar outro bicho vai levar para longe. Conheço todas as treitas de onça.

– Você acha que ela volta? – perguntou Chico de Francisco, o que brigava todo dia com a mulher.



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